Por Salvador Gomes
Sócio do Aeroclube de Santa Catarina

Em aviação, um acidente é sempre uma oportunidade de aprender – muito, algumas vezes. O caso mais recente em debate, o acidente com o voo Voepass 2283, que caiu em Vinhedo, São Paulo, em agosto de 2024, e cujo relatório final foi publicado recentemente, reserva suas lições. Uma delas, talvez das mais importantes, diz respeito a um conceito que ocupa recorrentemente aulas, práticas de voo e palestras em Centros de Instrução de Aviação Civil (CIACs) pelo país: a consciência situacional.
A tripulação do ATR-72, com a experiência que tinha, certamente ouviu e debateu muito sobre o conceito desde seus primeiros voos de formação profissional. Comandante e copiloto tinham, cada um, mais de 5 mil horas de voo. Eram extremamente qualificados e estavam em dia com os treinamentos, as habilitações e os exames médicos, conforme o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).
Por que, então, o voo não pousou em segurança em Guarulhos, São Paulo, como estava planejado? A resposta, é claro, tem muitos detalhes. E só está completa na extensão e no profissionalismo impresso nas 266 páginas do relatório do Cenipa. Qualquer outra forma de tentar estabelecer uma resposta conclusiva fora desse trabalho minucioso da investigação é um recorte, uma visão parcial, um viés limitado.
Aprender é o objetivo
Em aviação, o levantamento dos fatores que contribuem para uma acidente não tem como objetivo atribuir culpa. Trata-se de aprender. E uma (porque este é um recorte) das lições que se pode destacar desse relatório vêm lá das primeiras aulas, da instrução básica. Certamente, foi nos aeroclubes que frequentaram que comandante e copiloto do Voepass 2283 ouviram pela primeira vez lições sobre consciência situacional, sobre saber em que condições se está no voo.
Ambos, como quase todos os aeronautas brasileiros, começaram sua formação profissional em aeroclubes brasileiros. Lá, certamente escutaram frases de hangar como “voe sempre à frente do avião”; “nunca se coloque numa situação de voo em que sua cabeça não esteve muito tempo antes”… Esses ditos, que resumem horas de instrução, apontam para a necessidade de o aeronauta estar sempre atento à situação em que se encontra e antecipar o rumo dos eventos.
Nas primeiras aulas de voo, parece algo impossível prestar atenção a tantos detalhes. No entanto, com o acúmulo de experiência, o piloto em formação se habitua cada vez mais aos checklists, aos procedimentos, à fraseologia e a tudo mais. E, com a experiência, pode vir uma armadilha.
História de um pouso
O famoso escritor e aviador americano Richard Bach admite um deslize ao fazer um relato pessoal na sua coletânea de textos O Dom de Voar, de 1974. Ele pilotava com um grupo de companheiros que se preparava para pousar em uma pista de grama, próximo ao entardecer. Estavam em quatro pilotos, cada qual em um avião: Bach (ex-piloto militar), um colega de linha aérea em férias, um piloto de voo charter e um novato.
Bach estava apreensivo por ter alguém com pouca experiência no time e foi o primeiro a se aproximar para o pouso. Teve muita dificuldade para controlar a aeronave na final. Os outros veteranos pousaram em sequência, seguindo Bach, e se reuniram à beira da pista. Todos contaram suas dificuldades no pouso, falando de uma espécie de “armadilha” dos ventos sobre a grama.
Chamaram o novato pelo rádio e o advertiram da situação. Mas ele se aproximou e pousou sem problema, com tranquilidade. Foi um pouso “lindo, lindo”, escreveu Bach. Só que foi no sentido contrário da aproximação de todos os outros. Ao encontrar os veteranos à beira da pista, depois de desligar o motor da aeronave, o novato perguntou: “vocês não viram a biruta?”
E Bach é preciso no texto: “que se pode fazer, quando um piloto tão bom como eu ou você tem um lapso ocasional? A resposta continua a mesma: educação. Só que, neste caso, ela não depende de quantas vezes a gente aterrissou ou decolou, e sim de não esquecer que não se pode voar meio acordado ou por força do hábito”.
Experiência e proficiência
Tal qual a crônica de Bach esclarece: ter experiência não garante a consciência situacional. Por isso, manuais de aviação tratam da diferença de experiência e proficiência. Voar muito, nas mesmas condições, por “força do hábito”, pode baixar o alerta dos aeronautas. Sinais, alarmes e informações relevantes podem virar paisagem. Criam-se a cegueira e a surdez por desatenção, dois fatores contribuintes listados no relatório final do Cenipa no caso do Voepass.
Claro que a história completa deste acidente é aquela contada no documento oficial. Lá estão os motivos mais prováveis que levaram à degradação da consciência situacional por uma tripulação capaz e bem treinada. O relatório, aliás, mostra que a cadeia de eventos começou muito antes do cockpit e da preparação daquele voo em específico.
Esta é uma das lições desta história: a consciência situacional não pode ser encarada como um diploma ou um prêmio por experiência. Ela é construção, proficiência, renovação que se repassa a cada aula, treinamento, teste, voo, debate, palestra ou vivência de hangar.
Por isso, os CIACs do país, tal como o Aeroclube de Santa Catarina, entidade fundada em 1937 e formadora de pilotos até a atualidade, se esforçam para ampliar a educação aeronáutica profissional, com palestras, aulas, instruções, debates… Recursos que fazem uso da melhor ferramenta para qualquer aeronauta profissional: a educação.



